sábado, 14 de março de 2009

Ela

Ela nasceu em um pequeno povoado, filha de uma mulher simples e endurecida pela vida, amarga as vezes. Foi mal alimentada, porque a pobreza em que vivia não permitiria que fosse diferente. Ela cresceu , se fez mocinha , estudou a duras penas, nunca pode terminar seus estudos, mas aprendeu muito mais que se pode aprender nas salas de aula. menina ainda, foi abandonada pelo pai, que se foi. Mas a mãe guerreira e forte, terminou a função de criar a filha sozinha, o que na época foi heroísmo puro. Mas a menina tinha que se casar, e assim aconteceu, ingénua e pura como as meninas da época, se casou. Por amor? Pergunta difícil, só ela pode responder, mas não se encontra aqui presente pra me dizer, então me privo o direito da dúvida. mas se não amava quando se casou, passou a amar demais depois.Mudando de cidade em cidade, com as poucas coisas em uma charrete, ela vivia e labutava e criava e gerava filho após filho, em um total de treze. Pasmem! Treze entre filhos e filhas, três desses ela perdeu na morte enquanto ainda eram pequeninos, e eu como mãe posso dizer que certamente é a pior dor que alguém pode sentir.Mas a menina se tornou mulher e se tornou forte pelas dores, pelas alegrias e pelas batalhas vencidas. Quando se acomodou em seu cantinho as piores dores alem das que já tinha passado ainda estavam por vir, mas o sorriso dos lábios ninguém lhe roubava.Filhos crescidos e uma tragédia, seu filho já adulto a morte veio ceifar. Mas como o tempo ameniza todas as dores , a mulher simples da cidadezinha do interior se mostrou novamente forte como uma rocha e continuou e sobreviveu, o tempo passou e pela vida muitas alegrias também, os filhos casados os netinhos, os bisnetos a todos ela amava e protegia com a própria vida.E olhar pra essa mulher é ver um ser cheio de esperança, cheio de vida e cheio de energia, alguém como poucas. Mas a vida achou que não era o suficiente, como se todas aquelas dores ainda não bastassem para que se provasse que aquela mulher era realmente uma vencedora, então...mais um filho se foi, este a morte levou com requintes de crueldade.Porque ficaram filhos e esposa e a dor foi dividida por muitos mais, mais lágrimas, mais dores... E ah!!! o tempo o sedativo da dor mais uma vez veio em consolo daquela jovem idosa mulher, e apaziguou seu coração mais uma vez.Eu havia a pouco entrado em sua vida, aliás não queria falar de mim, mas já no primeiro filho adulto falecido eu já fazia parte da sua vida, e já havia tido a minha filha, na morte do segundo eu acabara de ter meu segundo filho, ela na sua dor tremenda e excruciante me disse, deitada em seu leito de dor. _ filha por favor não tenha mais filhos, porque cada filho que Deus lhe dá , Ele retira um meu. Não levei isso em conta, a dor e o desespero dela eram tamanhos que tudo lhe seria facilmente perdoado, até palavras como essas.Onde estará o tempo, que ameniza todas as dores? Ele estava por perto e foi o que fez, amenizou mais essa dor.E o tempo passou... Mas sem ser trágica demais, porque alegrias também foram muitas e nós demos boas risadas juntos e a família se tornava grande e bela e unida e feliz. E quando seu coração ajudado pelo tempo e pelo carinho de todos, já começava a cicatrizar as feridas, a morte veio novamente, com sua frieza e crueldade lhe retirar seu companheiro de cinquenta anos e fazê-la se sentir incrivelmente só.Mas em uma família tão grande a solidão se torna impossível,porem a noite cai e com ela a falta do calor, da conversa do companheirismo,. imaginem o que é viver com alguém tanto tempo...A mulher guerreira ainda não tinha acabado de colher sua safra de dores, Ainda tinha que perder o neto, e foi o que aconteceu, uma perda cheia de dores e horrores. Talvez estejam se perguntando. E ela como está?Viva, e cheia de vida, e forte e feliz e viajando e vivendo.É claro que lá dentro do coração em uma das pequenas gavetinhas, ainda existe a dor, aquela dor que nunca desaparece, mas o que faz dela e de muitas outras mulheres guerreiras e vencedoras e grandiosas , é guardar essas dores bem lá no fundo, sem permitir que elas as transformem em pessoas amargas deprimidas, infelizes. Em cada ruga do seu rosto existe uma história, em cada fio de cabelo branco existe uma dor, mas em todo seu corpo envelhecido pela vida, existe paixão, garra, gana de viver e de vencer.Nem preciso dizer quem é meu maior exemplo de vida...Ela minha mãezinha, não de sangue, mas de coração e de alma.Meu marido costuma dizer que amigos são mais que irmãos, porque irmãos nos são impostos pela vida , já os amigos nós escolhemos.E eu pude escolher minha mãezinha, a melhor e maior criatura que já conheci em toda minha vida.Que a vida não lhe pregue mais peças, que ela tenha só alegrias daqui pra frente,e que caso a dor venha novamente, que o tempo esteja por perto,por bem perto.E o meu amor, cada vez maior e absolutamente dela.
Sandra Botelho

3 comentários:

Paula disse...

Conheci essa graciosa senhora e tive alguns graciosos minutos de conversa com ela. Mas, o bastante para sentir fundo tudo isso que você, Sandra fala dela. O sorriso e as palavras, a experiência de uma vida, a alegria. Linda de viver. Um olhar afetuoso, a mim, uma estranha naquele momento.
Uma senhora como ela, teve um presente de ter uma filha de coração como você. Tão especial quanto ela.
Beijinhos

Uma anja disse...

Minha base de tudo, meu exemplo de vida, minha mãe!!!!

Obrigada Sandra por tamanha dedicação a essa guerreira que, mesmo morta por dentro consegue dar vida a todos que dela se aproxima.

me emocionou mocinha rsss

bjus

Sergio disse...

Meu Suquinho de Luz... Minha vitamina pra vida... Tive aqui hoje. E você é a sorte bruta e a sorte enternuradinha de carinho pra quem te tem por perto, viu? No que escreveu há mais de um ano.

Adoro você e não te deixarei nunca. Mesmo que em pensamento. Estarei sempre perto, te desejando tudo de bom e muita força porque todo mundo sabe q a vida não é só feita de beleza. Tem que haver a força pra equilibrar as outras forças dos males que só podem vir pro bem e aquele que por ventura seus amigos lhe façam e que certamente você faz pra gente.

Depois me conta essa história dessa mãe amada melhor. Você teve tantas (boas e nem tanto assim) que já embaralhei as estações.

Só sei q cada comentário que te faço estou acompanhado de um sorriso seu. Amo o seu sorriso! E foi, a primeira vista, a paisagem mais linda que me conquistou o coração.

Beijos de cartão postal!