domingo, 31 de maio de 2009

De quem é a culpa?

Olá, eu sou aquele menino que você não vê, moro ali bem ao lado de sua casa, em um morro onde as casas são construídas sem a menor segurança, sem projetos específicos, sem esgoto, sem energia elétrica. Sou aquele garoto que te assaltou ontem lembra? Sei que não te interessa minha vida, você só quer saber da sua segurança não é? Eu deveria estar na escola, mas tenho que trabalhar para ajudar minha família, tenho onze anos e já sou um homem, quando eu me tornar adulto, quero ser dono do morro, eu quero ser bandido. Porque? Porque bandido, ganha dinheiro, compra comida , drogas e mulheres. O governo não me deu outra escolha e a sociedade também não, quando quis estudar não tinha condições de ir até a escola, não podia comprar cadernos, e se ia a escola não dava pra assistir a aula até o fim porque o sono não deixava, afinal o tiroteio na favela durou a noite toda. Quando o sono não atrapalhava, meu colega tinha levado arma pra escola e as aulas eram suspensas. Enfim estudar pra que? Quero ser bandido, roubar pra levar comida pra casa. Empunhar uma arma faz com que os outros me respeitem. Eu já tenho onze anos, sou um homem. Alem do mais na favela os garotos não brincam com videogames, nem computadores e muito menos tem brinquedos, na favela nos brincamos de policia e ladrão, e eu quero ser o ladrão. Veja aquele policial, ele tem uma sherokee, vai me dizer que com oitocentos reais por mês ele consegue comprar um carro desses, é bandido também, ganha dinheiro da boca pra ficar quieto, pra deixar meus parceiros trabalharem. Eles ajudam a gente trazem armas pra nós, armas de uso do exército, estamos nos tornando mais fortes que os militares.Olha nos meus olhos eu não tenho mais o brilho que as crianças tem , meu desejo é de vingança, vingança contra uma sociedade injusta que matou meus sonhos de criança, se e que algum dia já os tive de verdade. Eu quero ser bandido e trabalhar para o trafico, posso ser olheiro ou entregador, mas um dia serei o gerente do morro, aí sim serei poderoso. Sei que posso morrer com uma bala no peito, mas antes de morrer levo um monte comigo. Eu mato mesmo, principalmente os "guarda". Eu cresci dormindo com as baratas e ratos, no meu barraco quando chove a agua entra e fica até o joelho, minha mãe colocava tijolos nos pés da cama pra gente não correr o risco de acordar no meio da agua suja. A única pessoa que gosto nessa vida é minha mãe, mato quem mexer com ela, meu pai era bandido também e morreu com um tiro na cabeça, dado pelos policiais. Meus irmãos já entraram todos pro trafico, e agora minha mãe chora e me pede pra não seguir esta vida.Quer que seu seja doutor...É engraçado, ser doutor eu, nunca, quero ser bandido, como meus irmãos, meus amigos.Meu destino é a rua e meu trabalho o crime. Eu já tenho onze anos e já sei o que quero. Não quero ser como esses mauricinhos, que sobem o morro pra comprar drogas, eles tem carrão, tem dinheiro e se drogam, não entendo porque. Então porque vou querer ser como eles? Eu uso drogas pra ter coragem pra roubar e matar.Eles não tem motivos então acho que é porque a vida deles é uma droga pior que a que eles usam. As meninas ricas querem ser mulheres de bandidos, isso dá a elas a segurança que não tem lá em baixo, aqui no morro ninguém mexe com mulher de bandido. Então você ainda acha que eu tenho que ser doutor? Se eu levar uma bala no peito não me importo, eu espero por isso todos os dias estou preparado pra isso. tenho onze anos e dois crimes nas costas, mas sou menor e ninguém pode me prender, por isso sou usado pra fazer coisas que poderiam ferrar um parceiro meu mais velho, leva-lo em cana. Os cana tem que me deixar ir embora e eu adoro ver a cara de bobo deles, quando me devolvem as ruas. O crac é meu maior parceiro, ele não me deixa ter dores de consciência, nem me lembrar de tudo que já passei.Ele disfarça a fome, com ele esqueço que ainda sou menino e me sinto homem. Então agora vocês podem me olhar com desprezo e com nojo. Eu sou bandido mesmo. Por escolha por opção, por falta de oportunidades, fui criado no crime e é o que sei fazer melhor. Este é o meu mundo.Já tenho onze anos e sou um homem, quero ser BANDIDO. Sandra Botelho

2 comentários:

David Monsores disse...

Olá!
Ótimo texto!!
Minha identidade é Bandido, sobrenome não tenho.
Mas meu eu verdadeiro chora sangue
De um coração pisado.

BeijO!
Até mais!

Paula disse...

De quem é a culpa? Sinceramente de uma série de fatores, de uma série de impunidades, de uma série de insuficiências, de uma série de nada, de fazer nada, de acomodação, de deixar como está. De não se preocupar enquanto não está dentro da casa da gente.
Tem uma música do Engenheiros do Hawaíi, uma banda que eu amo, aliás que retrata algo assim.
"Então erguemos que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia..."
Beijinhos, Flor! Você é uma pérola! Te gosto muito!